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Mensagens

Sou uma cãibra.

Sou uma cãibra. Que espreita intraderme, inchando e que magoa. Peço pressão para aliviar. Alguém que tenda a sufocar-me junto dos músculos e da lógica. Sou um chato. Que não se alinha, resmungando e que incomoda. Não peço nada. Alguém que queira apaziguar-se junto da estupidez alheia. Sou um morto-vivo. Que aceita a morte, mandando tudo para o caralho. Peço inteligência. Alguém que já não se incomode com a fraca elasticidade mental dos bichos. Sou uma bandeira. Que se inunda em cores, negando qualquer preconceito. Não peço muito. Alguém que se sente à minha frente, invocando humildade forçada.
"A minha única esperança é finar-me alcoolizado e cheio de amor por todos"

O Salvador (do nada).

Os cavalos lindos relincham: “Isso cavalinho do pai, relincha como um rouxinol. Relincha à vontade aqui para o Salvador porque tens ganas de dançarino na tua raça andante. A propósito, alguém viu aí o meu iPhone a relinchar, também?” Gargalhada generalizada. A saber: o Salvador é a alegria do clube! “E no domingo sempre vamos ver o nosso grande Belenenses?”. “Sim(!)”, grita em uníssono os amigos e familiares num orgulho estridente. Uma vez mais, a sublinhar, o Salvador tem qualquer coisa muito especial. Ai, sei lá, um talento de ser quem é. Bem-haja, Salvador. 
"Quanto mais nobre é o génio, menos nobre é o destino. Um pequeno génio ganha fama, um grande génio ganha descrédito."
(Fernando Pessoa) 

a-vida-em-son(h)o.

(...) a vida no reboliço dos ponteiros. no mastigar do chão, no vaivém de acertos, de correctores, do que se deixa lá albergar. fechar mão de (...); abrir outra: perder para não guardar. abrir mão de (...); fechar outra: guardar para não perder. lógica de cálculo. cômputo mecanográfico orgânico. partículas de(o) nada. sonhos. realidades paralelas. desdobramentos astrais. a vida mais longe, mais profunda, mais pueril em dor. analgésicos. calmantes. cosmos ou um simples sofá-cama. dormir, por fim, adormecer. o son(h)o da vida. a vida em son(h)o.

"fechar mão de (...); abrir outra: perder para não guardar. abrir mão de (...); fechar outra: guardar para não perder"


O torniquete.

Se tomasse um batido de comprimidos agora antes do jantar, sei que virias em meu auxílio por breves momentos. Depois, desceríamos a rua para tomar café no Chico e comprava-te um bolo de chocolate para te adoçar de vez. Se a minha doença fosse maior, talvez crónica, tu estarias ao meu lado a adormecer-me do destino. Só que te fartarias novamente de mim: sei que sim! E se, lembro-me agora (!), escrevesse um livro ou pisasse um palco maior, tu dar-me-ias os teus olhos “atacâmicos” outra vez? Por agora, na tua corrida louca pelo dia pelo dia, deixando-me sempre a longos metros do torniquete, gritas-me do outro lado com a tua doçura megafónica: “Zorze, tens estado a tratar das frieiras e de ti?”

"Se a minha doença fosse maior, talvez crónica, tu estarias ao meu lado a adormecer-me do destino"

O preciosismo do amor.

O preciosismo. Cirurgia de afectos. Veias, articulações e o nervo ciático esmagado a formigar-me os pés voadores. Pequenas incisões de amor, largos derrames de perda. Rios de sangue-sangue lacrimoso. O esmagador desejo de ter crónica a tua presença. Coses-me contigo lá dentro. Nas entranhas, no fundo do que não volta a nascer. O amor numa lógica orgânica e descontrolada.

"Pequenas incisões de amor, largos derrames de perda"

a minha morte nas tuas articulações.

A viagem ficou pelo embate na autoestrada. A chapa contraída nas nossas armações intraderme, numa despedida abrupta a dois. Inconscientes no delírio da raiva e do desespero, segue-se um último adeus afectuoso numa majestosa gare de destinos. Mesmo morrendo assim nas tuas articulações, no teu coração que um dia me albergou, ver-te-ei com a tua mochila bonita e rosa nas costas. A entrares no comboio e a dizeres apenas: "... agora tenho de seguir viagem, Zorze".
"(...) um último olhar de adeus afectuoso numa majestosa gare de destinos"

O "não-saber-sabendo-se".

O não-saber-sabendo-se é saber-se. Porque vejo tanto saber sem se saber que me dou a olhar para um enorme circo. As vítimas, nós, por não sabermos que, afinal, o não-saber-sabendo-se é saber-se. E embora ninguém o saiba de verdade, alguns de nós - poucos -, sabem... pelo menos, o suficiente.

"(...) alguns de nós - poucos -, sabem...)