terça-feira, 12 de janeiro de 2016

688

Janeiro de 2016. Escrevi centenas de idiotices. Quilos de lixo. Produzi alguns ensaios dignos, também. Percebo hoje a distância. Onze anos passaram. O tempo dos 1001 disfarces terminou. A fantasia com barba por fazer. Ontem li o Siddartha de Hermann Hesse e o David Bowie morreu. Foi como juntar rum a uísque. Hoje, esta será, neste meu velho blog, a minha 688 idiotice.

"(...) neste meu velho blog..."

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Amor licoroso

Quando te pedi água, amor, trouxeste-me um digestivo licoroso para degustar o fim da noite. O tabaco podia ser ordinário, mas a selecção era da melhor casta de palhas raras. Ah, que atordoo é este que vem depois do fumo que nos consome a boca? Na janela, o passante de cara desfocada e penso em fase apoteótica do sossego e da paz... "hmmm, tudo o que fica por detrás de um vidro não merece ser partido, mas apenas ficar do lado de fora; ali, no frio invernoso como um aquário de água fria". Neste meu conforto intraparedes, intramuros, intraverdade, intraderme, intra-arrumo é o som diminuído da televisão, o livro pousado no colo, o portátil a passar fotos e música, a tua ou teu moço, os mais bonitos do bairro, a concederem-te o sorriso das órbitas interplanetárias do amor.

"(...) que atordoo é este que vem depois do fumo que nos consome a boca?"

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Esconderijo.

A chuva que lustra este alcatrão não tem o cheiro da terra molhada das serventias. Os ténis ensopados de água e lama. Procuro-te. Deslumbrado entre as amoras delicadamente retiradas às silvas silvestres. Imaginando. Fantasiando. Com a boca avermelhada de inocência. Para que possa seguir o meu regresso. E para que a essência, a minha, seja sempre feita aí.

"(...) amoras delicadamente retiradas às silvas silvestres."

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A elasticidade estática.

No abstracto de exemplificações cerebrais muito nossas, eis que me surge a palavra "elasticidade" para descrever o que de mais intrigante existe em nós: sabermos, afinal, muito pouco da nossa abrangência e(ou) capacidade(s). Curiosamente, em tudo aquilo que julgamos ser mais capacitados - e onde jogamos charme de presunção - se apresenta como o que de menos elástico temos. Tal ou tais descobertas são avassaladoras e acontecem frequentemente. O melhor disto tudo é então entendermos que outra coisa que submetemos à área das nossas fragilidades é afinal um ponto forte que de nada serviu ser entregue a uma humildade "isauriana".

"A nossa evolução de inteligência enquanto indivíduos pensantes deve-se à descoberta da elasticidade em pontos nossos que julgávamos estáticos"

quarta-feira, 27 de março de 2013

Só-a-fé.

A fé dos nomes. A fé de T-su. De X-y. Vindouros. Outras espécies em Novilíngua. Em transparência de afetos híbridos. Finas folhas de crepes vietnamitas. Bombardeadas pelo silêncio dos órgãos internos à vista dos olhos. Cérebro pojante e de cor pisada. Hiper funcional. Hiper depressivo. Cáustico em desmazelo. Inocente em maldade de já a ser parida. O olhar sem retorno. Retorno cogente e desesperado do nada. O nada. A fé dos nomes. A fé do futuro. A fé, por si só. Isolada. Só. A fé de G-o. De E-y. Jantar à luz de leds. Vitaminas e suplementos. Miúdos robotizados em entradas USB, BSU, SUB e variantes afins sem fim. O caos da morte em vida. O Futuro. A fé morta. Reincarnada, reinventada. Por si. A fé: só! É para viver. Agora. Já. Enquanto há beijo. Enquanto nos esvaímos em sangue, suor, sémen, lágrimas. A fé da vida. A fé do amor. A fé de gostar. Para morrermos no gáudio de não chegarmos lá vivos.

"A fé de G-o. De E-y. Jantar à luz de leds. Vitaminas e suplementos. Miúdos robotizados em entradas USB, BSU, SUB e variantes afins sem fim"

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Desdobrando o amor da vida no nada.

A ORIGEM. A infinitude das galáxias. Nós: Ao tamanho do nada. O AMOR. As orgásticas supernovas. Nós: Ao abraço de uns e outros. A VIDA. Os delírios dos meteoritos. Nós: A sonharmos o conforto do colo. A RAZÃO. A radiação cósmica. Nós: Ainda por aqui a orar a sorte...

"Obrigado por me deixares experienciar o teu mistério microscópio, dEUS"

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Um minúsculo ensaio sobre amor.

Caíram lágrimas de ferro no rapaz de água. No choro, a ferrugem que se seguiu. No ataque corrosivo em si. No inverso, anverso e no contrafeito. Reinventou outro tecido para si. No cuidado crestar da sua transparência. Na regeneração de outra pele de fé. Em vidro aramado com o menos de se expor. O amor abraçou-o enjeitando resistência à sua força. Deu-se então a ela. Aferrando-lhe o seu lado de dentro. O espaço que sempre esperou por si.

"(...) pele de fé. Em vidro aramado com o menos de se expor"

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O maravilhoso mundo do atordoamento alcoólico.

"(…) Bon voyage mon grand ami! Une grande année pour vous!” ou qualquer coisa assim do género. Mas há mais pérolas do meu vizinho alcoólotra aquando das chegadas tardias ao meu poleiro. "Este Mercedes é do caralho, foda-se, motores que nunca mais terminam, ó caralho, fooooda-se!". "Ui, c'um caralho", penso: o gajo está todo fodido outra vez! Do último encontro vale-me uma boa trincadeira alentejana, é certo... A garrafa foi uma bela oferenda depois de provas sucessivas de uísque velho na sua casa - afinal, essa é, como referiu, a sua principal especialidade! "Oh mon grand ami, maintenant je vais vous montrer ces armes venus d'Afrique". "Oh foda-se", como que em dom de adivinho, "este gajo vai dar-me um balásio e eu vou deixar de ver o meu mundo sóbrio". Ainda por cima vai matar-me em francês e podre de bêbado... Mas não. Segui-se apenas um "bom, vizinho, vou mesmo ter que abalar...".

"Oh mon grand ami, maintenant je vais vous montrer ces armes venus d'Afrique"

domingo, 9 de dezembro de 2012

O meu amigo dEUS.

Quando dei por mim a ter voz de raciocínio e com o intuito próprio de poder esbarrar em dEUS, várias por vezes sem conta, insultei-o. Ou o sENHOR achou graça à minha postura insinuante ou não teria ele agora abençoado este pobre Zorze Zorzinelis com tudo aquilo o que ele sempre quis. Com o amor de gente tão boa à minha volta e com os fantasmas eliminados por fim, digo-te isto pela primeira vez e bem sentido, meu caro amigo: "Obrigado, foda-se! És do caralho!" Isto, mesmo que por vezes me tenhas sodomizado ao melhor estilo do Rocco Siffredi, mas reservaste-me esta felicidade imensa de estar aqui entre as tuas marionetas orgânicas e sentimentais. Viver é bom e não me queixarei mais, pá!

"Obrigado, foda-se! És do caralho!"

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A massa do intraderme.

O apressado enrolar de nós emotivos nas entranhas do que somos, como a intraderme em choque na feira das luzes, dos cheiros de uma mostra de espécimes passantes, dos holofotes ordinários e do algodão doce. Assim para o desfocado de um tempo que é uma graça com óculos de massa. Existe e acumula-se aos poucos como a certeza de beijarmos o pueril e entontecedor sentido de não estarmos cá amanhã. Fino-me, mas bebo para ver torcido ainda o curvilíneo das tuas apófises cervicais e o cheiro armagedónico de tesão que o acompanha. Nas cores que pairam acima da minha enorme cabeça, há aquelas que obedecem a pantones, as subservientes e as outras que se confundem eternamente numa mistura laboratórica, demente e infindável de desejos químicos. A+B+C são as primeiras letras do abecedário; mas o Z de Zorze e de Zorzinelis é a última. Finita e genuína. Um chegar de meta onde a letra e o homem reencontram-se finalmente, e em paz, para estourar uma outrora semente magnífica em fase geriátrica.

"(...) um tempo - este! - que é uma graça com óculos de massa"